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Olá Pedro. É um prazer contar com a sua participação na Revista do Livro da Scortecci.
Do que trata o seu Livro?
Trata-se de um compilado de textos poéticos que versam sobre o encantamento com o qual a violência é apresentada ao longo do processo de formação da identidade masculina no Centro-Oeste brasileiro, e como, sendo assim, se torna uma prática moralmente aceita e socialmente parabenizada. Partindo da compreensão de que a masculinidade dessa região do país habita o imaginário nacional, exercendo uma influência cultural (principalmente em relação à imagem do homem sertanejo) e ditando um modelo de comportamento, o livro Antofagasta se propõe a expor as diferentes maneiras com que se disfarçam agressões e assédios para adentrarem na performance social. Em certos momentos, a escrita desse livro me fez questionar se os valores e princípios difundidos pela minha sociedade realmente cumprem o papel de travestir a violência, ou se esse conjunto de moralidade é a própria violência. Ademais, questões relacionadas à crise na República, e ao espectro do corpo militar perante os últimos acontecimentos políticos permeiam as diferentes narrativas do livro.
Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?
A ideia foi surgindo aos poucos, na realidade. Gosto muito de escrever e faço isso de forma despretensiosa, sem a intenção de compor um livro, por exemplo. Escrevo as reflexões que me vêm à mente. Com o passar do tempo, os poemas desse livro foram escritos ao longo de cinco anos, o tema da violência em suas mais diversas modalidades se tornou o mais recorrente – fruto de vários episódios que se tornaram destaque para mim, fatos que ocorreram em minha cidade, Goiânia, e na região rural do estado. O que sempre me pareceu óbvio é que nenhum tipo de prática, que num primeiro momento parece causar comoção social, poderia perdurar por tanto tempo, atravessando gerações, sendo executada sempre pelos mesmos tipos antropológicos, sem que houvesse um “respaldo”, ou uma “justificativa” concedida pela própria sociedade. Daí a performance masculina cultivada em Goiás, e no Centro-Oeste. O público alvo não é específico, de qualquer modo acredito que seja uma leitura interessante para os homens – não por propor algo pedagógico, essa não é a intenção da literatura, mas por propor um exercício de leitura que tem a intenção de brincar com a moral vigente, fazendo malabarismos com ironias e pilhérias.
Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. O primeiro de muitos ou um sonho realizado?
Difícil dizer agora, o principal motivo para eu ter publicado Antofagasta é contribuir para a literatura do Centro-Oeste. Nós somos uma região sobre a qual se especula bastante. Não são poucas as produções veiculadas nas mídias de massa (novelas, filmes, músicas, videoclipes, etc.), que retratam nossa cultura de um ponto de vista mercadológico, atendendo a uma demanda de produções, mas em relação aos livros escritos aqui, muito pouco se fala, até mesmo no âmbito acadêmico. Essa é minha grande intenção, mas não descarto a possibilidade de publicar outros textos.
O que te inspira escrever?
A linguagem. Utilizar a linguagem para modificar a compreensão da realidade, formulando novos termos e expressões, inventando novas formas de compor escrita (função que o gênero poesia consegue executar magnificamente), é a grande razão pela qual eu escrevo. E é incrível como um conjunto de palavras escritas, distribuídas numa ordem x, pode ser lido, decifrado, e rapidamente despertar no interlocutor um sentimento. É uma resposta imediata e inevitável. Como quando eu expôs alguns dos meus textos na ALEGO, algumas pessoas conversaram comigo, me contaram o quanto os textos causaram incômodo, desconforto, sendo que muitos não ultrapassam cinco linhas. Essa comunicação é o que me encanta, e é um dos princípios com os quais se pode discorrer sobre o direito à literatura.
O seu livro merece ser lido? O que ele tem de especial capaz de encantar leitores?
Acredito que sim, naturalmente, caso contrário não teria publicado. Mas não tenho a intenção de encantar meu leitor com esse livro. Alguns textos, mesmo que poéticos, têm outras intenções. Ser sutil e usar uma linguagem comedida, na maioria das vezes são características que aparentam maturidade, fazem os críticos acreditarem que o autor possui domínio sobre a linguagem, e sobre a literatura. Uma falha cômica, na realidade, muitas críticas são equívocos e sempre acabam em engano, como diria Rilke. Não, a experimentação é substancialmente o descompromisso com a academia. O que é vulgar, cínico, irônico, desproporcional e inacreditável, é o que faz um texto se mover, alcançar as pessoas, ir além de uma aula de literatura cujo único objetivo é aprovar no vestibular.
Como ficou sabendo e chegou até a Scortecci?
Quando eu decidi publicar esse livro comecei a enviá-lo para várias editoras, e obtive muitas respostas: editoras de Minas, São Paulo e do Rio, mas nenhum dos contratos me agradou. Na verdade eu achei que os contratos foram mal redigidos, acredito que as editoras não possuem um departamento jurídico adequado, os erros eram muito grotescos, e os contratos muito toscos. Uma delas se reservava o direito de realizar “alterações textuais” no meu livro, claramente eu não iria assinar um contrato assim. A Scortecci publicou o livro Caderno de Poesia 3, finalista no Prêmio Jabuti do ano passado, foi assim que eu soube da editora. Eu entrei em contato e colhi as informações, o que me agradou foi a liberdade: nenhum tipo de cláusula ou restrição. Eu pude decidir todo o processo de publicação.
Obrigado pela sua participação.
Fonte: Revista do Livro

