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Olá Luisa. É um prazer contar com a sua participação na Revista do Livro da Scortecci.
Do que trata o seu Livro?
É uma dupla biografia, cujo fio condutor é o autismo: a minha infância desafiadora e a do meu filho, diagnosticado no espectro autista aos 22 meses de idade. Atravessa gerações e décadas diferentes. Apenas mudei os nomes e, talvez, a ordem de um ou outro pequeno detalhe histórico, mas diria que é 99% real.
Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?
Sempre quis contar minhas vivências. Tentei outras abordagens, mas nada parecia certo. Quando meu filho se tornou adulto, ele fez uma nova avaliação neurológica para se entender melhor — compreender o que o autismo significava para ele, e não o que a mãe relatava da sua infância. Isso foi muito importante e me inspirou. Eu o consultei sobre contar nossas experiências, pois jamais escreveria sem o aval e apoio dele. Ele abraçou a ideia e, na verdade, se animou com ela. Foi o primeiro leitor emocionado. Sem dar spoiler, um fato no final da história explica muito o porquê da necessidade das duas biografias e da existência desse livro.
Embora qualquer pessoa possa retirar sentimentos e pensamentos da leitura do livro, ele é especialmente importante para quem tem o autismo em sua vida de alguma forma. Não é um manual de informações, livro referencial ou fonte de conselhos; não sou uma profissional da área. É apenas a nossa vivência pessoal, pois cada pessoa autista é diferente e única. Porém, o leitor pode se identificar com algum sentimento ou situação. Ou apenas saber que outras pessoas estão navegando o espectro e, como eles, cruzando seus próprios mares.
Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. O primeiro de muitos ou um sonho realizado?
Quem sabe ambos? O tempo dirá, mas um novo livro sempre será uma opção. Escrevi minha primeira poesia aos doze anos e nunca parei de tricotar letras. Lancei sozinha um pequeno livro de poesias em inglês quando morava nos EUA, e amo escrever em prosa e verso. Talvez um livro de contos com assuntos e situações que não entraram nesse livro — ou novas vivências — esteja no meu futuro. Tomara!
O que te inspira escrever?
Sentimentos. Quando escrevi aquele primeiro poema na infância, meu pai leu. Ele conhecia o Fernando Sabino, pois tinham o amor ao jazz em comum. O feedback que recebi foi: “Viva e escreva. Tenha experiências e fale sobre elas.” Foi o que fiz; segui essa estrada realista.
Eu não consigo dissociar meus textos das experiências reais. Mesmo usando a fantasia e a criatividade, a base deve ser algo real, palpável. Mesmo que sejam realidades de outras pessoas ao meu redor, e não minhas próprias vivências. O importante é o sentir.
O seu livro merece ser lido? O que ele tem de especial capaz de encantar leitores?
Penso que todo livro merece ser lido pelo leitor certo. Acredito muito que a verdade e a emoção que o meu livro traduz devem tocar muitas pessoas. Não é a história científica geral do autismo nem sugere generalizações ou conselhos, mas é o relato de pessoas específicas lidando com suas vidas, nas quais seu autismo próprio e particular tem grande participação. A obra tem a proposta de fazer os leitores ponderarem, aprofundarem suas noções e refletirem sobre como ajudar esse mundo a ser mais inclusivo e empático. Elas podem sentir a nossa trajetória, que é só nossa, mas traz relatos humanos, erros, dor, humor e, principalmente, muito amor. É aí que o livro se universaliza.
Como ficou sabendo e chegou até a Scortecci?
Foi mais um caminho desafiador. Sou do Rio de Janeiro e estava trabalhando com a querida, saudosa e excelente profissional Thereza Christina Rocque da Motta, da Ibis Libris, e agradeço muito a ela pelo incentivo, pelas revisões, pelas boas conversas sobre o livro e a vida literária em geral. Infelizmente, ela não teve tempo de levar o trabalho até o final, e seu filho gentilmente me indicou a Scortecci para passar o bastão e prosseguir com a confecção da obra. Agradeço muito a todos pela acolhida e sinto que sempre estive em boas mãos.
Obrigada pela sua participação.
Fonte: Revista do Livro

